A população brasileira envelheceu,o país estará se ajustando a essa nova realidade?
A população brasileira envelheceu. Os resultados censitários indicam um aumento considerável da população com mais de 60 anos de idade para as próximas décadas.
O país estará se ajustando a essa nova realidade? Considerando o quadro brasileiro a partir de Fortaleza, chegamos a conclusões desanimadoras. Antes de tudo, o idoso não compõe a paisagem urbana na mesma proporção de sua representatividade na composição da população da cidade. Cadê o idoso, onde ele está? Não é visto nas praias, nas praças, nas ruas. A impressão geral é que a sociedade fortalezense oculta seus idosos, tirando-lhes o direito de ir e vir. Sessenta anos de idade seria o limite para uma vida social plena? Seria a idade do recolhimento, da acomodação numa espreguiçadeira, esperando o tempo passar? Claro que não. Malgrado as crises vividas pela sociedade brasileira, avançamos muito em relação è expectativa de vida. Homens e mulheres sonham, realizam e planejam dias melhores. Traçam metas de futuro. Muitos permanecem no mundo do trabalho. Outros, consideram já cumpridas suas missões.
Planejar o quê? Passear pela cidade, sentar num banco de praça e prosear, divertir-se, vagar pelas ruas, desfrutando o direito de viver livre de tantos horários e compromissos. Aqui, infelizmente, isso não é possível. A calçada é a grande inimiga dos idosos, isso, quando existe. Quando existem, são, na maioria das vezes irregulares, mal pavimentadas, de sofrível conservação e constantemente ocupadas de forma inadequada. São muitos os obstáculos encontrados nas calçadas de nossa cidade – buracos, carros estacionados, material de construção ocupando as áreas de passagem, inclinações excessivamente íngremes, desníveis entre outros. Se pretende passear, visitar amigos, rever algum ponto da cidade ou se deslocar para o trabalho, o idoso enfrenta ônibus com degraus altíssimos que dificultam o acesso. No interior dos veículos a circulação é dificultada pelo uso excessivo de travas e barras.
Circular livremente é muito difícil numa cidade dominada por escadas. São muitos os obstáculos que amedrontam e impedem uso mais democrático da cidade, garantindo ao idoso o direito de se deslocar. Faltam rampas, elevadores, bancos em praças, banheiros públicos.
Idoso não é incapaz. Incapaz é a cidade que não se prepara para acolher aqueles que são detentores de sua memória. Os que são, efetivamente, seus construtores e usuários. São eles que possuem em suas lembranças, fatos memoráveis da história da cidade, que dominam diferentes mapas mentais de Fortaleza na construção de percursos, trajetos e itinerários. São eles que melhor conhecem nossa história urbana e acompanham as mudanças aceleradas vividas pela cidade?
Os idosos merecem uma cidade melhor. Não basta iludir com parcos direitos esse segmento social tão importante. Uma fila aqui para os idosos nas agências bancárias, outra ali, nos super-mercados, sempre em quantidade inferior à capacidade de demanda. Parece mais concessão que direito. Quantos idosos aguardam ansiosos nas paradas de ônibus a boa vontade dos motoristas em parar para que eles possam embarcar? Desrespeito maior é a fila dos aposentados e pensionistas em dia de pagamento. A truculência de uns, a má vontade de outros, acaba atingindo idosos de todas as idades e classes sociais. É claro que os mais pobres são as vítimas preferenciais. Em contra partida, os idosos reagem. Alegres e cheios de energia organizam grupos de diversão, de prestação de serviços à comunidade e mostram sua face, ocupam seus espaços e demarcam seus territórios.
Prof. José Borzacchiello da Silva
Geógrafo e Professor da UFC
21.09.2007 – Jornal “Diário do Nordeste”
14/11/2007