Na próxima quintal, 3 de maio, o CETRA realizará mais uma Conversa de Quintal.
Agora o tema é agrotóxicos e saúde humana, com a contribuição da doutora Raquel Rigotto, pesquisadora e estudiosa do assunto.
O nosso espaço é o Quintal das Margaridas e, como sempre, na boca da noite!
Leia MaisAgroecologia é também transformar cada quintal em um campo de experimentação aberto à criatividade dos agricultores e agricultoras que trabalham nele. É isso que Francisca Vera Jerônimo, trabalhando lado a lado de seu companheiro Antônio Moacir Jerônimo Lucas, da comunidade Purão (Trairi-CE) vem fazendo.
Leia MaisÉ mais ou menos uma hora de estrada da sede de Canidé pra chegar na comunidade de Carnaubal. A casa onde seu Lindomar Leitão vive com a esposa Angerlânia e as filhas Natália e Nayara tem um quintal produtivo onde ele cultiva de forma agroecológica. Começou a plantar sem usar veneno porque era caro, depois, com as campanhas de conscientização, viu que era ruim e a prática provou que não precisava. O quintal produtivo já o fez parar de comprar as verduras no mercado: mamão, coentro, cebolinha, pimenta de cheiro, pimentão… Tudo vai da terra direto para a mesa. E, o que sobra, para a Feira da Agricultura Familiar, todas as quartas-feiras na Praça Azul, no centro da cidade.
Na terça, dia 14 de fevereiro, seu Lindomar foi fazer uma experiência diferente no seu quintal. Ele recebeu 19 agricultores e agricultoras vindos do Assentamento Todos os Santos e das comunidades Cacimba Nova e Fresco dos Almeidas, além dos técnicos do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (CETRA) para um intercâmbio. A ideia era conhecer essa área produtiva, o quintal, porque estes agricultores visitantes são todos beneficiários do Projeto Cisternas de Enxurrada e vão, agora, começa a cultivar seu próprio quintal agroecológico. Visitar a experiência do seu Lindomar foi uma das etapas do processo, que já contou com um curso de formação e ainda tem um intercâmbio interestadual.
O ânimo é geral, mesmo antes da visita. Um exemplo é Gilson Barbosa, assentado do Todos os Santos. Ele diz que adora plantar e criar e já desenhou no mapa como quer seu quintal formado. “Aqui é onde vou plantar as frutas, aqui eu planto as hortaliças, aqui eu chamo minha farmácia viva e aqui é o meu roçado, tudo perto da casa”, explica ele, apontando no papel.
Seu Lindomar começa a contar sua trajetória. Ele diz que, primeiro, a maior dificuldade do plantio é a água, “se tiver é só querer que dá certo”. E como Carnaubal tem um açude, a vontade deu certo. Ele planta consorciado pimenta de cheiro e pimentão, que “aí as pragas se dividem também e um aproveita a água do outro”. O mato serve como adubo orgânico e ajuda a mantar a umidade perto da terra. Ensina também que no canteiro você economiza adubo e trabalho se colocar o estrume só na vala em que vai plantar, daí dá para aproveitar o canteiro o ano todo, é só ir ajeitando. Para garantir, ainda coloca uma garrafa de vidro virada de cabeça para baixo em um pedaço de pau – “afasta o mau olhado, quando você tem um canteiro bonito, diz que é bom”. Depois do quintal do seu Lindomar, todos foram conhecer o quintal do pai dele, seu João, que mora ao lado. Os altos pés de mamão e as grandes goiabas e bananas deixaram todo mundo ainda mais empolgado.
Passada a visita, foi numa metodologia de roda de conversa que todo mundo deixou suas impressões. Para Braz Cavalcante, do Assentamento Todos os Santos, foi muito interessante a forma de organizar, colocando tudo nos canteiros. “Eu acho que a experiência mais importante foi a do estrumo, de colocar só onde planta e não no canteiro todo”. Gilson também destaca que as plantas servem não só como alimento, mas como medicina.
Rita da Silva, do mesmo assentamento, diz que “com certeza vou colocar o estrumo só nas valetas, que nem eu aprendi com o seu Lindomar”. Ela e a irmã, Francisca – mas que todo mundo conhece como Adriana, não conheciam essa metodologia dos canteiros e agora estão ansiosas que seus quintais comecem para poder aplicar. No começo, ambas ficaram meio desconfiadas, mas depois do curso do projeto começaram a achar que ia dar certo mesmo. Hoje as duas trabalham em casa e ajudam os respectivos maridos nos roçados, mas quando o quintal chegar as coisas vão ser diferentes. “Vai ser o meu canto”, diz Adriana, “mesmo que o marido ajude, como ele já ajudou limpando”. Ainda sobre o intercâmbio, Adriana leva outro lado: “é muito bom. A gente demora muito para sair de casa, então é tudo novidade: vir, ver o caminho e a casa do seu Lindomar, conversar…”
Albertina Carneiro é da comunidade Cacimba Nova. Ela diz que logo quando chegar vai “passar para o marido a história dos canteiros, de colocar o estrume só na valeta, para ele economizar adubo e trabalho”. Ela e os dois filhos já ajudam o companheiro na plantação, perto do Rio Xinuaquê, e também já planta um pouquinho no seu quintal por isso se interessou pela ideia das cisternas de enxurrada e quis participar do projeto. Além disso, eles não usam agrotóxicos nem queimam nada. Quando os problemas vão aparecendo, eles vão inventando.
Depois da troca de impressões, foi o momento lúdico, de cada grupo desenhar o mapa do quintal que haviam visitado. Apresentaram, apontaram um ao outro, “faltou isso”, “olha aquilo”, “isso tá no lugar errado”, mas sempre com companheirismo e diversão, elogiando também os mapas que os colegas haviam desenhado.
Ao final, a avaliação positiva foi geral. Todo mundo falou do aprendizado, de que era a hora de ver o que ia começar a fazer, mas também conhecer lugares novos, pessoas novas, fazer amizades, se divertir. Seu Lindomar que, quando foi marcado o intercâmbio, ficou imaginando como seria, mas gostou muito. “Tanto de receber o pessoal das outras comunidades como de receber os técnicos, porque aproxima da gente”, acrescenta. Ele diz que também aprendeu algumas coisas e finaliza: “se Deus quiser, quem sabe, a gente muda essa história do Canidé, muda essa política e faz até um galpão da agricultura familiar, que nem já tem em outras cidades”.
Leia MaisNo segundo dia do Congresso Brasileiro de Agroecologia, a tarde foi tomada por discussões e oficinas sobre diferentes temas. O agrônomo Luís Eduardo Sobral e a economista doméstica Neila Santos, ambos coordenadores do CETRA, estiveram facilitando uma roda de conversa que se propôs a discutir a relação ente a agricultura familiar e a assessoria técnica e extensão rural. A mistura de olhares de profissionais, agricultores e acadêmicos gerou um debate rico e produtivo sobre o tema.
O debate envolveu aproximadamente 20 pessoas e inciou com a apresentação de Luis Eduardo do estudo de caso desenvolvido no território Vales do Curu e Aracatiaçu a partir da análise de um agricultor que recebeu assessoria técnica governamental, um casal que havia recebido assessoria de alguma organização da sociedade civil, no caso o CETRA, e um agricultor que não havia recebido nenhuma assessoria técnica. Além disso, foi caracterizado o território, sua história social e produtiva e as condições geográficas.
Logo após, Cinara Sanches (SASOP-BA) explicou que esse estudo havia sido realizado em várias regiões do Brasil, contemplando todo o semiárido. Ela destacou a falta de dados na agroecologia devido à velocidade das atividades realizadas, mas anunciou o lançamento de uma publicação com a análise global dos estudos para 2012. Cinara apontou também que a comparação entre o sistema agroecológico e o tradicional deve ocorrem em uma visão mais global, para além dos números – deve-se analisar, por exemplo, a qualidade da alimentação do produtor e as relações sociais naquela família e comunidade – além de puxar para o papel de que é necessário às organizações definir o que é a extensão rural em sua perspectiva.
As intervenções após a apresentação foram diversas. O professor Joaquim Torres (UFC-Cariri) colocou que “temos que pensar uma agroecologia com o olhar no presente e no e futuro”. “Agroecologia como receita de bolo não existe, cada caso é um caso”, complementou Carlos, agrônomo e colaborador do IPA-PE.
Ganhou destaque a fala de José Júlio Rodrigues, agricultor experimentador agroecológico. Para José Julio, que há nove anos cultiva de forma agroecológica em seu quintal e roçado, as dificuldades da agroecologia estão para recuperar a forma antiga de se fazer agricultura e conta que, no começo, as pessoas da sua comunidade acharam que ele estava doido, que não ia dar certo. “Mas deu certo, agroecologia dá certo sim!”, explica ele, que acrescenta que os resultados não são imediatos, demora um pouco para aparecer. Ela ainda diz que participa de quatro feiras agroecológicas por mês e que hoje tem pessoas que preferem comprar na feira que no mercado, porque sabem que aquele produto é bom, além da relação que se cria entre produtor e consumidor.
Na questão do consumo, Neila Santos, coordenadora do CETRA, inicia sua fala destacando que “é necessário romper com a lógica do capitalismo”. Ela segue dizendo que o trabalho é no sentido também de desconstruir a cultura propagada de que aquilo produzido industrialmente ou fora é melhor que o que o agricultor cultiva no seu quintal. Cinara Sanches retoma a fala no mesmo sentido, observando a importancia de se trabalhar também o consumidor, que ele saiba que existe outra coisa e o que ele está financiando quando escolhe um produto agroecológico ou um do agronegócio.
Encerrada a tarde, muitos aprendizados para todas as partes. O VII Congresso Brasileiro de Agroecologia vai até sexta, 16 de dezembro, e tem como tema “Ética na ciência: Agroecologia como paradigma para o desenvolvimento rural”.
Leia MaisNa última quarta-feira, 7 de dezembro, foram apresentados, no evento “Feiras Agroecológicas: Resultados de Pesquisa”, as conclusões do estudo realizado nos municípios do Ceará sobre o processo de organização e de produção nas feiras agroecológicas. A pesquisa foi desenvolvida numa parceria entre o Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT) e o Núcleo de Economia Solidária da Universidade Federal de Pernambuco (NECSO-UFPE).
Buscando abordar a origem, o funcionamento, as práticas solidárias, a capacidade de gestão administrativa e financeira desses produtores e seu histórico ocupacional e de renda, os professores Tarcísio de Araújo, Roberto Alves Lima (UFPE) e Junior Macambira (IDT) contaram com a presença de agricultores que participaram do estudo e da coordenação do CETRA, dentre outros, na platéia de apresentação.
Os professores explicaram que o estudo foi desenvolvido dentro do contexto de preocupação recente com a economia limpa e o chamado desenvolvimento sustentável, além de uma crescente demanda de mercado na qual se destaca a preferência dos consumidores por produtos de mais qualidade, embora a produção ainda seja pequena, não alcançando 3% da área agrícola total do mundo segundo a IFOAM.
Nas pesquisas realizadas no território Vales do Curu e Aracatiaçu, constatou-se que a média de idade dos feirantes girava em torno dos 50 anos, sendo em boa parte (entre metade ou um pouco mais) mulheres. O maior grau de escolaridade encontrado foi o ensino fundamental. Geralmente os agricultores, em processo de transição agroecológica, tiram cerca de 20% da renada familiar a partir da venda de produtos naturais e beneficiados nas Feiras.
Vale destacar que a construção das Feiras Agroecológicas, além do espaço de comercialização, é também um resgate cultural desse espaço e resultado do processo de organização social dos agricultores e agricultoras, incentivando as relações de solidariedade e entre produtores e consumidores, numa troca e construção de conhecimento coletivo.
Em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação, a Assembléia Legislativa do Estado do Ceará realizou uma audiência pública com o tema segurança alimentar, no último dia 18.
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