“Queremos cisternas de placa!” foi a principal palavra de ordem da mobilização pela convivência com o semiárido, que reuniu ontem, quinta-feira (22), mais de 1500 pessoas na av. Bezerra de Menezes. A partir das 7 da manhã, agricultores e agricultoras vindos de todo o Ceará participaram do ato público que caminhou da igreja São Gerardo até a Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Estado. Na ocasião também foi comemorado o encerramento da semana das águas como celebração do direito do acesso à água, conquistado pelas famílias com a convivência com o semiárido.
Essa história já é longa. No final da década de 1990 surge a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA-Brasil) com seu Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC), cuja meta era construir 1 milhão de cisternas de 16 mil litros no meio rural do semiárido para armazenar água da chuva e esta ser consumida pela família para beber e cozinhar pelos meses que não chovem. Tempos depois começava o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), que armazena água para ser utilizada na área de produção para irrigar frutas, verduras e hortaliças. Além disso, em ambos os projetos, existem os processos de mobilização e capacitação das famílias, nos quais são explicados os projetos e acontecem os cursos de como melhor utilizar e economizar a água.
As metodologias e eficiência de ambos os projetos estão testadas e aprovadas pelos agricultores. Raimundo Oliveira é um dos inúmeros exemplo disso. Agricultor de Tauá, ele tem tanto a cisterna de água de beber como a de água de produzir. Para ele, as mudanças foram grandes: a água potável da cisterna de placas representa a saúde que veio para sua família. Já a água de produção foi a realização de um sonho, pois só então ele pode cultivar hortaliças. “Hoje já tenho até um ponto no mercado, onde todo dia vou vender minhas verduras, melhorou muito a renda depois dessa cisterna calçadão”, explica ele.
Outra vida que mudou foi a de Maria Natéria que, mesmo sem receber nenhuma cisterna, também foi beneficiada. Ela fez o curso de capacitação de pedreiros em 2007, no município de Ipueiras e, de lá para cá, complementa a renda de casa construindo cisternas. “O serviço é pesado, mas é bom se envolver nesses movimentos, a gente vai participando e aprendendo”, conta.
Em dezembro passado, porém, o Ministério do Desenvolvimento Social colocou todas essas experiências em xeque quando começou o projeto de implementar cisternas de plástico polietileno para facilitar o acesso à água sobre o argumento de agilizar o processo. Pouco depois, a ASA organizou uma mobilização nacional que reuniu mais de 15 mil pessoas e diversas instituições em Petrolina (PE). Hoje foi a vez dos agricultores e organizações do Ceará, que já haviam estado presentes na outra ocasião, reafirmarem que cisterna tem que ser de placa.
“A cisterna de plástico custa mais, é mais que o dobro da de placa, é gastar o dinheiro público numa coisa que a gente não sabe se vai dar certo. Além disso, está deixando de fazer o dinheiro circular na comunidade, porque você compra o cimento e o supercal nas comunidades, e agora esse dinheiro vai para as empresas. E se quebrar? A de placa, todo mundo sabe consertar”, argumenta Raimundo.
Nonato Freitas é representante do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Paraipaba, que é um município que não está no semiárido considerado legal. Ele explica que, apesar disso, existem vários problemas com água e precisa muito de cisternas, pois lá têm várias comunidades sem água potável. Mas tem que ser cisterna de placa, pois “no verão, no calor do Ceará, na cisterna de placa a água está sempre fria dentro. Imagina a de plástico, como não vai ficar quente essa água?”, questiona. Ele ainda acrescenta a questão de gerar emprego e renda nas comunidades.
Muito acordo tem José Barbosa, agricultor de Ibaretama, da comunidade Sítio Cajueiro. “Tanto a gente precisa do trabalho, como o projeto precisa do nosso trabalho. A cisterna de plástico não precisa do pedreiro e aí complica pra gente, porque é uma fonte de renda”, explica ele.
E vão surgindo novos elementos. Para Alessandro Nunes, da coordenação executiva do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido, a maior perda simbólica é a da cidadania, pois os processos de mobilização de construção de cisternas coloca as famílias como protagonistas de sua própria segurança hídrica.
Josefina Duarte, animadora de campo do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e pedreira de cisternas, vai na mesma linha. Ela explica que “essa coisa de o governo só entregar as coisas na mão, sem colocar as pessoas para participar do processo é muito complicada. Já conheço história de gente que ia sair do semiárido e ficou lá porque construiu uma cisterna, entendeu, se apegou a ela. Quando você só recebe, é mais difícil dar valor”, conta.
“Já são 100 mil cisternas construídas no Ceará. Mais de 500 mil pessoas beneficiadas, com acesso à água potável, além de comunidades, e o próprio estado, porque a compra de material também gera divisas. Não faz sentido comprar uma cisterna que custa mais que o dobro, porque a de plástico sai por 5 mil reais, enquanto a de placa custa R$2080. Aqui no Ceará já fizemos cisterna de placa por R$ 1800, então é um gasto de dinheiro público desnecessário”, argumenta Cristina Nascimento, coordenadora da ASA. E ela ainda joga valores não monetários, como os benefícios trazidos pelos processos, como a autonomia, a organização da comunidade, pois as cisternas são construídas em mutirão, e a auto-estima dos agricultores. “A velocidade das cisternas de plástico não compensa isso”, finaliza.
Após a mobilização, às 14 horas, aconteceu uma reunião com o secretário Nelson Martins na qual estiveram presentes a coordenação do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido e representantes de cada uma das microrregiões. Lá, o secretário garantiu que não iria extinguir as cisternas de placas, mas também não tinha como se ausentar das de plástico, pois o programa é nacional.
Leia MaisAs atividades do Dia Internacional da Mulher no território Vales do Curu e Aracatiaçu ainda seguiram pela manhã do dia 9 de março. A partir das 7 horas, mulheres dos 18 municípios começaram a se concentrar na Praça da Igreja Matriz de Itapipoca para seguir em caminhada num Ato Público que teve como principal temática “DIGA NÃO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER“. O tema foi escolhido num momento em que os movimentos feministas a nível nacional travam essa discussão, que também é uma realidade do território.
Salete Pinto, agricultora e assentada do Assentamento Maceió e militante do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MMTR-NE), diz que esse é um dos temas mais necessários no momento, pois, por mais que se tenha trabalhado, a violência não vem diminuindo. Ela reitera com a necessidade de se reivindicar a Delegacia da Mulher, uma vez que as mulheres do território também não têm onde fazerem suas denúncias.
O CETRA também está nessa luta. Além da questão da igualdade de gênero ser um dos temas sempre trabalhados ao longo dos 30 anos da instituição, Eliane Rocha, que atualmente coordena os dois projetos de mulheres em execução no território, conta que várias mulheres com as quais os projetos trabalham têm histórico de violência. “São várias histórias e isso chama atenção no trabalho e nos chama também à responsabilidade de estar fazendo algo para essas mulheres, principalmente na questão da auto-estima”, explica Eliane.
Suzilene Ribeiro explica que a igualdade de gênero e uma luta das mulheres rurais, indígenas, quilombolas, enfim, do campo e da floresta. “Queremos dar visibilidade também que tem pessoas que se importam com essas mulheres, especialmente com a violência que elas sofrem e que a cada dia aumenta”, afirma a coordenadora regional de mulheres da Federação dos Trabalhadores/as da Agricultura do Estado do Ceará (FETRAECE). Ela ainda acrescenta que a participação das mulheres nos espaço políticos vem aumentando, pois quando elas vêem que tem gente tocando essa luta, se sentem mais preparadas e à vontade para ir também construir.
Quem também tem muito acordo é Adriana Soares, responsável pela pasta de gênero do Sindicato dos Servidores Públicos de Itapipoca (SINDSEP). Ela lembra que o próprio sindicato foi formado por mulheres e hoje tem uma maioria de mulheres. Além disso, explica, elas estão lutando pela paridade dentro das centrais: “não queremos o local dos outros, queremos o nosso”.
E como os povos do semiárido são vários, as mulheres também são vítimas de diferentes violências. Para Erbene Rosa, liderança Tremembé da comunidade São José e Buriti, no caso das mulheres indígenas, a violência se junta ao preconceito étnico. Ela conta que há casos de jovens mulheres agredidas só pelo fato de serem indígenas e que essas mulheres sofrem mais violência fora de casa, pois, apesar do reconhecimento da terra, o povo ainda não é valorizado. Ao falar sobre a situação na comunidade, a conversa é um pouco diferente: “para nossa glória, as principais lideranças são mulheres e nós guiamos os homens – eles não saem, ficam mais na agricultura”. Ainda assim, não é o ideal, existem casos de agressão na comunidade e algumas mulheres ainda não se sentem a vontade para participar.
Após percorrer algumas ruas de Itapipoca, as mais de 500 mulheres se concentraram na AABB, aonde a atividade foi finalizada com uma palestra sobre violência contra a mulher com a participação de Elisabeth Ferreira, do Fórum Cearense de Mulheres. Embora a violência esteja em todos os lugares, ela explica que as mulheres rurais têm mais dificuldade de denunciar e um desses fatores é a ausência de equipamentos. “Além disso, como as casas são mais afastadas, as pessoas não ficam sabendo e como têm menos organizações sociais preocupadas se cria um contexto de aparente não-violência”. Beth acrescenta a questão da propriedade, que geralmente são dos homens, o que dá às mulheres mais dificuldade de ter autonomia para romper com a situação de violência. Ainda sobre as dificuldades, ela aponta o machismo entranhado nas próprias mulheres, incentivado por estruturas sociais como a família e a religião, que atua na manutenção da violência e da submissão feminina.
Existem, porém, lugares onde essa estrutura já está sendo rompida. A Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as do território é um exemplo. Embora a coordenadora da Rede, Maria José Alves (Zeza), diga que a organização ainda tem que dar mais peso à questão da mulher, ela acrescenta que as agricultoras estão se destacando, saindo, produzindo, participando da feira, “os maridos é que ajudam”. Isso é importante na conquista dessa autonomia citada pela Beth, pois, como explica Zeza, “ao produzir renda, as mulheres melhoram sua condição financeira e vão ficando mais independentes, se alguém se separar do marido tem como se manter. E a educação em casa, com os filhos, também vai mudando”.
O processo é lento e as mudanças se dão aos poucos, mas talvez os filhos dessas mulheres guerreiras de hoje já estejam atuando numa sociedade com menos desigualdade de gênero e mais justiça social.
Se faça justiça as Palavras de Nazaré Flor: “Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer. A mulher organizada tem que chegar ao poder”.
Leia MaisQuando o março se pinta do roxo feminista é em todos os lugares. Em quase todas as cidades e estados vemos organizaões e movimentos se articulando para alguma atividade no dia 8 ou ao longo de todo o mês.
Leia MaisApós a realização de um ato público que reuniu mais de 15 mil pessoas em Petrolina (PE), representantes da Articulação no Semi-Árido (ASA) participaram nesta sexta-feira (23) de uma reunião em Brasília para definir os rumos da parceira com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).
Leia Mais“Lula, rezamos pela sua saúde. Interceda por nós junto à Dilma”.
Essa era uma das frases de tantas faixas, em meio à multidão que cruzou o rio São Francisco entre Juazeiro e Petrolina nesse 20 de Dezembro de 2011. No mesmo dia que o governo começou a distribuir cisternas de plástico pelo sertão, a ASA mobilizou 15 mil pessoas de todos os estados do semiárido contra o desmonte da política de convivência com o semiárido.
Leia MaisNa última terça, 20 de dezembro, quase 20 mil pessoas de todo o semiárido brasileiro se encontraram em Juazeiro (BA) e atravessaram a ponte para Petrolina (PE), sob as bênçãos do Rio São Francisco,
Leia MaisCom uma delegação de cerca de 500 pessoas, entre agricultoras/es e membros de instituições que fazem parte da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), o Ceará foi à Petrolina (PE) dizer “sim” à continuidade das ações de convivência com o semiárido.
Leia MaisO programa de construção das cisternas de placas foi criado pela Articulação do Semiárido e virou política pública.
O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) não renovou aditivo com a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA)
A Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) realiza na manhã da próxima terça-feira (20), na cidade de Petrolina (PE), um ato público para reafirmar a importância da sociedade civil na construção de políticas públicas de convivência com o Semiárido.
Leia MaisNo próximo dia 19 uma caravana de aproximadamente 500 pessoas vai sair do Ceará com destino a Petrolina, cidade de Pernambuco, onde participa, na manhã de terça-feira (20), de um ato público para reafirmar a importância da sociedade civil na construção de políticas públicas de convivência com o Semiárido. O objetivo é fortalecer e fazer conhecer a luta de homens e mulheres por uma vida mais digna num semiárido sustentável e segurança alimentar.
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