Purão é uma comunidade rural que fica bem no caminho entre Itapipoca e Trairi, mas pertence ao segundo município. Lá vivem seu Moacir e dona Vera, em uma casa cor-de-rosa na qual, de cara, já dá pra ver a cisterna de placa de 16 mil litros do lado. Além desta eles têm outra cisterna, calçadão, com a qual cultivam seu quintal produtivo. O casal tem dois filhos, mas quem cuida mesmo das plantas são eles, pois os jovens estudam e trabalham nas sedes dos municípios de Itapipoca e Trairi.
O chuvoso 29 de março foi um dia diferente. 11 agricultores e agricultoras familiares beneficiários do Projeto Cisternas de Enxurradas, realizado no território pelo CETRA em parceria com a Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Estado. As expectativas eram muitos, mas em todos a vontade de ver um quintal produtivo já estabelecido e aprender coisas novas.
Seu Moacir já começa explicando que este é um trabalho que você só faz se quiser mesmo e se gostar. A cisterna calçadão chegou lá faz mais ou menos um ano e, junto, os técnicos construíram dois canteiros. Ele construiu mais quatro, comprou as sementes e começou a produzir. Hoje o quintal tem coentro, cebolinha, alface, pimentão, cidreira, couve, boldo e duas espécies de mamão, dentre outras espécies. A horta já dá para o consumo da família e ainda tem o excedente, que ele vende todos os sábados na própria comunidade, afinal “não ia adiantar eu vender na Feira no Trairi ou na Itapipoca e o pessoal daqui do lado ter que ir até lá, se eu posso vender aqui”, explica.
Quanto ao manejo, ele conseguiu adaptar bem ao solo praieiro da região. Utiliza estrume de cabra nos canteiros, além de, quando vai capinar, não joga fora o mato, mas coloca ele para debaixo da terra para servir de adubo também. Geralmente gasta 600 litros de água por dia para agoar o quintal com um regador de manhãzinha e ao final da tarde. Este ano vai testar uma experiência e forrar a parte de baixo do canteiro com barro e bagana de carnaúba, além de colocar a bagana por cima para, tudo junto, reter mais e umidade e tentar economizar mais água.
Essa não é a primeira experiência que seu Moacir faz em seu quintal. Já experimentou colocar uma lona embaixo do canteiro para não deixar a água escoar demais pela arenosidade do solo. Também faz uma proteção em seus canteiros, colocando folha de coqueiro apoiada em estacas e formando um “teto” para que o sol não chegue muito em algumas plantas, como o coentro, que são mais sensíveis.
Depois do almoço, foi a hora de conversar. Seu Franciné Diniz estava muito empolgado com a visita. “Andando é que a gente vê e descobre as coisas”, afirma ele, que descobriu na visita as vantagens de cultivar o tomate cereja, que antes ele achava que era frutinha do mato e não dava para nada. Ele diz que gostou de tudo o que viu na primeira vez em que esteve em um quintal produtivo e que volta muito animado para começar o seu. “Também quero receber um intercâmbio um dia”, finaliza ele.
Dona Carmelita, da comunidade Lundu, município de Miraíma, quase não ia receber a cisterna de enxurrada por causa do tamanho do seu quintal, que era muito pequeno. Ela diz que achava ia entrar em depressão se não desse certo e, em cada etapa, ia mais feliz. Assim foi para o intercâmbio, porque quer aproveitar cada pedacinho do seu quintal. E aprendeu muita coisa, “principalmente aquele negócio de colocar a palhas suspensas, porque eu colocava quase em cima do coentro, mas agora vou fazer que nem o seu Moacir”. Dona Carmelita diz também que já tem várias fruteiras em seu quintal, como manga, acerola, caju e ciriguela, e agora está muito interessada em plantar verduras.
Quem também se empolgou foi dona Rita de Sousa. Ela já está levando as sementes de tomate cereja para plantar no quintal, além da ideia de montar as cobertas do coentro com palha de coqueiro e estacas. “Sou eu quem vai cuidar do meu quintal, por isso gostei demais de ter vindo. Fiquei ainda mais animada para ver o meu pronto!”, exclama.
Josivaldo de Sousa, por sua vez, já tinha visitado um quintal em Amontada por ocasião de um curso no projeto Raiz. “Mas com certeza foi importante, estou voltando mais animado para montar o meu quintal”, conta ele. De novidade, Josivaldo diz que viu as plantas medicinais e achou importante, vai plantar também. “A gente tem que ter um pouco de tudo para poder consorciar”, explica.
Carlos Rodrigues foi representando a mãe. Ele voltou preparado para contar tudo, com a certeza de que ela vai se empolgar ainda mais. “Quando ela montar uma horta dessas, vai até botar uma rede lá dentro”, diz ele. Nessa história de mudança, quem também se animou foi Domingos Rodrigues: “se o seu Moacir quisesse, eu ficava morando aqui mais ele de tanto que gostei”.
Luis de Sousa acha que volta para casa com muito mais conhecimento. “Para quem não sabia como começar, o seu Moacir deu uma grande lição para a gente. Foi muito bom. Já estou levando a semente do tomate cereja, que eu também não conhecia, para começar as mudinhas”, comenta.
Seu Antônio Teixeira, que além de agricultor é conselheiro do Fórum Microrregional pela Vida no Semiárido de Itapipoca, já enxerga mais adiante. “Em vez de estar saindo e comprando, tem a hortaliça no quintal e já vai é virar o vendedor”, ele coloca. “Eu vejo também que é um programa certo para o semiárido do Nordeste, porque incentiva a família a trabalhar, a aumentar a produção e gerar renda”, finaliza.
E a ideia de seu Moacir é continuar nessa produção. “Enquanto Deus me der saúde…”, diz ele, enquanto se despede dos outros, depois de tirar de seu quintal várias mudas para os agricultores e agricultoras visitantes levarem. Afinal, o intercâmbio, além de trocar e construir conhecimentos coletivos, também é uma troca de afetos.
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Mais um intercâmbio para trocar experiências, conhecer pessoas e visitar lugares. Dessa vez o destino foi o Assentamento Boa Vista, em Quixadá, que recebeu agricultores e agricultoras dos Assentamentos São Francisco e Nossa Senhora de Fátima, ambos de Canidé. O sentimento geral da chegada é de vontade de conhecer, de ver esse tal quintal produtivo que cada um deles vai começar a executar em sua unidade.
O intercâmbio, por sua vez, é mais uma das etapas formativas pelas quais as famílias passam dentro do Projeto Cisternas de Enxurrada, executado pelo CETRA, com o apoio da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Governo do Estado do Ceará, nos territórios do Sertão Central, Sertões de Canidé e Vales do Curu e Aracatiaçu. A ideia é justamente levar as famílias beneficiárias para conhecer experiências já mais avançadas daquilo que elas vão executar.
O Assentamento Boa Vista é formado por 24 famílias e a maioria trabalha com agricultura. A água, no local, não é um fator limitante, pois existem açudes e todo mundo já conta com a cisterna de placa de 16 mil litros da água de beber. Eles ainda têm alguns projetos comunitários, como uma horta e uma casa de ordenha, que também foram visitados pelos intercambistas. Mas vamos pelo começo.
A primeira parada foi na casa de seu Ismael Oliveira, que, desde 2005, não compra nem utiliza gás butano em casa. O que aconteceu é que ele montou um biodigestor no quital e, a partir de então, o gás utilizado para cozinhar é produzido a partir da fermentação do esterco de gado. Além disso, o esterco que sai depois do processo que extrai o gás já é curtido, ideal para ser utilizado como adubo para as plantas. Fato interessante nesse processo é que o gás produzido só não é agressivo ao meio ambiente se ele for queimado.
Depois, foi a hora de conhecer o quintal da dona Lurdes Oliveira, que mora e trabalha com o esposo, seu José. Sua casa foi o primeiro quintal produtivo da comunidade e surgiu depois que ela começou a participar do Projeto Dom Helder Câmara, executado pelo CETRA. Dona Lurdes fez um curso de agroecologia por 8 meses e conta, com emoção, que foi, aos poucos, superando a depressão que sofria através da atividade produtiva. Saiu, fez vários intercâmbios em Itapipoca. Além da cebolinha, do coentro, do mamão e das outras plantas que cultiva, colheu também auto-estima e hoje é a tesoureira da associação comunitária. Boa parte da alimentação que consome vem do quintal e ela praticamente só compra produtos industrializados.
Como dona Lurdes está no lugar desde o começo do assentamento, em 2000, ela acompanha também a evolução da comunidade. Um dos destaques, ela conta, foi a chegada da assistência técnica para os agricultores, pois já é possível perceber que hoje tem bem menos queimada.
Em seu quintal, ela experimenta. Além das frutas, legumes e hortaliças, tem flores, porque “são eficientes contra as pragas, já que atraem os insetos para e
las”. A irrigação também foi um problema resolvido com criatividade. Antes era preciso um dia inteiro andando de um lado para o outro para agoar todas as plantas. Até que surgiu a ideia da irrigação usando mangueira e cotonetes, com um motor para bombear água do açude. Deu certo e hoje o quintal todo é irrigado, ela vai só abrindo e fechando as chaves e, em pouco tempo, as plantas estão agoadas. O tempo economizado serve para fazer outras coisas.
A visita seguinta foi ao quintal de dona Helena, que começou com cheiro verde e depois as várias bananeiras. Ela conta que as bananeiras foram ideia das mulheres da horta, que os homens achavam que não ia dar certo. Teimou. Hoje produz dois tipos de banana no quintal.
A horta comunitária é uma experiência a parte. Começou em 2005, através do Projeto Dom Helder Câmara, com um grupo de jovens, mas eles não tocaram e as mulheres assumiram. Depois, algumas se retiraram para cuidar dos quintais e hoje são três famílias que tomam conta. Dona Lurdes diz que visitar a horta é uma boa forma de entender a diferença entre o orgânico e o agroecológico, pois todos os produtos sã
o cultivados sem agrotóxicos, mas alguns canteiros não são montados da forma mais respeitosa ao meio ambiente.
A última experiência visitada foi a da casa de ordenha, também comunitária, quem envolve 10 famílias. Foi meio que por acaso. O projeto tinha recurso e a intenção inicial era ampliar a horta, mas como não dava, optaram por comprar cabras e depois o tanque de resfriamento.
Os aprendizados do dia foram muitos. Seu Zé Cacau, assentado do São Francisco, está decidido a construir um biodigestor e gostou muito de saber que pode combater o cachorro de areia com defensivos naturais. Gonzaga também está empolgado: “vou plantar horta e perto colocar as frutas, criar pinto, frango, que o cocô do pinto serve de adubo e eles mesmos também comem as plantas que já estão mais secas”. E acrescenta: “tomara que, no futuro, alguém vá visitar a gente também”.
Joseano é o presidente da Associação do assentamento São Francisco e também é pedreiro de cisterna. Ele diz que o intercâmbio vai aumentando o conhecimento de todo mundo. “Eu fiquei feliz de ver a preocupação de alguns assentados com o meio ambiente”, comenta.
Dona Letícia, do assentamento Nossa Senhora de Fátima, gostou muito. “Vou fazer os canteiros, que eu sou louca por verdura, e no meu quintal quero coqueiro também”, diz ela empolgada para começar a sua produção.
O dia seguinte foi o momento de discutir com mais profundidade e de os intercambistas desenharem os mapas dos lugares visitados. Depois, hora de voltar para casa. Alguns deles já estão com as cisternas prontas, outros com ela em construção, mas em todos, depois do intercâmbio, o ânimo e a certeza de que vai dar certo.
Leia MaisÉ mais ou menos uma hora de estrada da sede de Canidé pra chegar na comunidade de Carnaubal. A casa onde seu Lindomar Leitão vive com a esposa Angerlânia e as filhas Natália e Nayara tem um quintal produtivo onde ele cultiva de forma agroecológica. Começou a plantar sem usar veneno porque era caro, depois, com as campanhas de conscientização, viu que era ruim e a prática provou que não precisava. O quintal produtivo já o fez parar de comprar as verduras no mercado: mamão, coentro, cebolinha, pimenta de cheiro, pimentão… Tudo vai da terra direto para a mesa. E, o que sobra, para a Feira da Agricultura Familiar, todas as quartas-feiras na Praça Azul, no centro da cidade.
Na terça, dia 14 de fevereiro, seu Lindomar foi fazer uma experiência diferente no seu quintal. Ele recebeu 19 agricultores e agricultoras vindos do Assentamento Todos os Santos e das comunidades Cacimba Nova e Fresco dos Almeidas, além dos técnicos do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (CETRA) para um intercâmbio. A ideia era conhecer essa área produtiva, o quintal, porque estes agricultores visitantes são todos beneficiários do Projeto Cisternas de Enxurrada e vão, agora, começa a cultivar seu próprio quintal agroecológico. Visitar a experiência do seu Lindomar foi uma das etapas do processo, que já contou com um curso de formação e ainda tem um intercâmbio interestadual.
O ânimo é geral, mesmo antes da visita. Um exemplo é Gilson Barbosa, assentado do Todos os Santos. Ele diz que adora plantar e criar e já desenhou no mapa como quer seu quintal formado. “Aqui é onde vou plantar as frutas, aqui eu planto as hortaliças, aqui eu chamo minha farmácia viva e aqui é o meu roçado, tudo perto da casa”, explica ele, apontando no papel.
Seu Lindomar começa a contar sua trajetória. Ele diz que, primeiro, a maior dificuldade do plantio é a água, “se tiver é só querer que dá certo”. E como Carnaubal tem um açude, a vontade deu certo. Ele planta consorciado pimenta de cheiro e pimentão, que “aí as pragas se dividem também e um aproveita a água do outro”. O mato serve como adubo orgânico e ajuda a mantar a umidade perto da terra. Ensina também que no canteiro você economiza adubo e trabalho se colocar o estrume só na vala em que vai plantar, daí dá para aproveitar o canteiro o ano todo, é só ir ajeitando. Para garantir, ainda coloca uma garrafa de vidro virada de cabeça para baixo em um pedaço de pau – “afasta o mau olhado, quando você tem um canteiro bonito, diz que é bom”. Depois do quintal do seu Lindomar, todos foram conhecer o quintal do pai dele, seu João, que mora ao lado. Os altos pés de mamão e as grandes goiabas e bananas deixaram todo mundo ainda mais empolgado.
Passada a visita, foi numa metodologia de roda de conversa que todo mundo deixou suas impressões. Para Braz Cavalcante, do Assentamento Todos os Santos, foi muito interessante a forma de organizar, colocando tudo nos canteiros. “Eu acho que a experiência mais importante foi a do estrumo, de colocar só onde planta e não no canteiro todo”. Gilson também destaca que as plantas servem não só como alimento, mas como medicina.
Rita da Silva, do mesmo assentamento, diz que “com certeza vou colocar o estrumo só nas valetas, que nem eu aprendi com o seu Lindomar”. Ela e a irmã, Francisca – mas que todo mundo conhece como Adriana, não conheciam essa metodologia dos canteiros e agora estão ansiosas que seus quintais comecem para poder aplicar. No começo, ambas ficaram meio desconfiadas, mas depois do curso do projeto começaram a achar que ia dar certo mesmo. Hoje as duas trabalham em casa e ajudam os respectivos maridos nos roçados, mas quando o quintal chegar as coisas vão ser diferentes. “Vai ser o meu canto”, diz Adriana, “mesmo que o marido ajude, como ele já ajudou limpando”. Ainda sobre o intercâmbio, Adriana leva outro lado: “é muito bom. A gente demora muito para sair de casa, então é tudo novidade: vir, ver o caminho e a casa do seu Lindomar, conversar…”
Albertina Carneiro é da comunidade Cacimba Nova. Ela diz que logo quando chegar vai “passar para o marido a história dos canteiros, de colocar o estrume só na valeta, para ele economizar adubo e trabalho”. Ela e os dois filhos já ajudam o companheiro na plantação, perto do Rio Xinuaquê, e também já planta um pouquinho no seu quintal por isso se interessou pela ideia das cisternas de enxurrada e quis participar do projeto. Além disso, eles não usam agrotóxicos nem queimam nada. Quando os problemas vão aparecendo, eles vão inventando.
Depois da troca de impressões, foi o momento lúdico, de cada grupo desenhar o mapa do quintal que haviam visitado. Apresentaram, apontaram um ao outro, “faltou isso”, “olha aquilo”, “isso tá no lugar errado”, mas sempre com companheirismo e diversão, elogiando também os mapas que os colegas haviam desenhado.
Ao final, a avaliação positiva foi geral. Todo mundo falou do aprendizado, de que era a hora de ver o que ia começar a fazer, mas também conhecer lugares novos, pessoas novas, fazer amizades, se divertir. Seu Lindomar que, quando foi marcado o intercâmbio, ficou imaginando como seria, mas gostou muito. “Tanto de receber o pessoal das outras comunidades como de receber os técnicos, porque aproxima da gente”, acrescenta. Ele diz que também aprendeu algumas coisas e finaliza: “se Deus quiser, quem sabe, a gente muda essa história do Canidé, muda essa política e faz até um galpão da agricultura familiar, que nem já tem em outras cidades”.
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