A cultura do algodão, desde a década de 1980, é um desafio para a população do semiárido e, em especial, para o Ceará, histórico produtor dessa cultura. Os desafios são muitos e, pensando, nisso, ocorreu no último dia 22 o Encontro de Formação do Algodão em Consórcios Alimentares Agroecológicos, no Assentamento Alegre, município de Quixeramobim.
Leia MaisÉ comum ouvir das bocas dos agricultores que uma das partes mais importantes dos projetos é a assessoria técnica e os aprendizados que ela leva.
Leia MaisConscientizar foi o objetivo principal do evento que comemorou o Dia Mundial da Água em Quixeramobim.
Leia MaisMais um intercâmbio para trocar experiências, conhecer pessoas e visitar lugares. Dessa vez o destino foi o Assentamento Boa Vista, em Quixadá, que recebeu agricultores e agricultoras dos Assentamentos São Francisco e Nossa Senhora de Fátima, ambos de Canidé. O sentimento geral da chegada é de vontade de conhecer, de ver esse tal quintal produtivo que cada um deles vai começar a executar em sua unidade.
O intercâmbio, por sua vez, é mais uma das etapas formativas pelas quais as famílias passam dentro do Projeto Cisternas de Enxurrada, executado pelo CETRA, com o apoio da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Governo do Estado do Ceará, nos territórios do Sertão Central, Sertões de Canidé e Vales do Curu e Aracatiaçu. A ideia é justamente levar as famílias beneficiárias para conhecer experiências já mais avançadas daquilo que elas vão executar.
O Assentamento Boa Vista é formado por 24 famílias e a maioria trabalha com agricultura. A água, no local, não é um fator limitante, pois existem açudes e todo mundo já conta com a cisterna de placa de 16 mil litros da água de beber. Eles ainda têm alguns projetos comunitários, como uma horta e uma casa de ordenha, que também foram visitados pelos intercambistas. Mas vamos pelo começo.
A primeira parada foi na casa de seu Ismael Oliveira, que, desde 2005, não compra nem utiliza gás butano em casa. O que aconteceu é que ele montou um biodigestor no quital e, a partir de então, o gás utilizado para cozinhar é produzido a partir da fermentação do esterco de gado. Além disso, o esterco que sai depois do processo que extrai o gás já é curtido, ideal para ser utilizado como adubo para as plantas. Fato interessante nesse processo é que o gás produzido só não é agressivo ao meio ambiente se ele for queimado.
Depois, foi a hora de conhecer o quintal da dona Lurdes Oliveira, que mora e trabalha com o esposo, seu José. Sua casa foi o primeiro quintal produtivo da comunidade e surgiu depois que ela começou a participar do Projeto Dom Helder Câmara, executado pelo CETRA. Dona Lurdes fez um curso de agroecologia por 8 meses e conta, com emoção, que foi, aos poucos, superando a depressão que sofria através da atividade produtiva. Saiu, fez vários intercâmbios em Itapipoca. Além da cebolinha, do coentro, do mamão e das outras plantas que cultiva, colheu também auto-estima e hoje é a tesoureira da associação comunitária. Boa parte da alimentação que consome vem do quintal e ela praticamente só compra produtos industrializados.
Como dona Lurdes está no lugar desde o começo do assentamento, em 2000, ela acompanha também a evolução da comunidade. Um dos destaques, ela conta, foi a chegada da assistência técnica para os agricultores, pois já é possível perceber que hoje tem bem menos queimada.
Em seu quintal, ela experimenta. Além das frutas, legumes e hortaliças, tem flores, porque “são eficientes contra as pragas, já que atraem os insetos para e
las”. A irrigação também foi um problema resolvido com criatividade. Antes era preciso um dia inteiro andando de um lado para o outro para agoar todas as plantas. Até que surgiu a ideia da irrigação usando mangueira e cotonetes, com um motor para bombear água do açude. Deu certo e hoje o quintal todo é irrigado, ela vai só abrindo e fechando as chaves e, em pouco tempo, as plantas estão agoadas. O tempo economizado serve para fazer outras coisas.
A visita seguinta foi ao quintal de dona Helena, que começou com cheiro verde e depois as várias bananeiras. Ela conta que as bananeiras foram ideia das mulheres da horta, que os homens achavam que não ia dar certo. Teimou. Hoje produz dois tipos de banana no quintal.
A horta comunitária é uma experiência a parte. Começou em 2005, através do Projeto Dom Helder Câmara, com um grupo de jovens, mas eles não tocaram e as mulheres assumiram. Depois, algumas se retiraram para cuidar dos quintais e hoje são três famílias que tomam conta. Dona Lurdes diz que visitar a horta é uma boa forma de entender a diferença entre o orgânico e o agroecológico, pois todos os produtos sã
o cultivados sem agrotóxicos, mas alguns canteiros não são montados da forma mais respeitosa ao meio ambiente.
A última experiência visitada foi a da casa de ordenha, também comunitária, quem envolve 10 famílias. Foi meio que por acaso. O projeto tinha recurso e a intenção inicial era ampliar a horta, mas como não dava, optaram por comprar cabras e depois o tanque de resfriamento.
Os aprendizados do dia foram muitos. Seu Zé Cacau, assentado do São Francisco, está decidido a construir um biodigestor e gostou muito de saber que pode combater o cachorro de areia com defensivos naturais. Gonzaga também está empolgado: “vou plantar horta e perto colocar as frutas, criar pinto, frango, que o cocô do pinto serve de adubo e eles mesmos também comem as plantas que já estão mais secas”. E acrescenta: “tomara que, no futuro, alguém vá visitar a gente também”.
Joseano é o presidente da Associação do assentamento São Francisco e também é pedreiro de cisterna. Ele diz que o intercâmbio vai aumentando o conhecimento de todo mundo. “Eu fiquei feliz de ver a preocupação de alguns assentados com o meio ambiente”, comenta.
Dona Letícia, do assentamento Nossa Senhora de Fátima, gostou muito. “Vou fazer os canteiros, que eu sou louca por verdura, e no meu quintal quero coqueiro também”, diz ela empolgada para começar a sua produção.
O dia seguinte foi o momento de discutir com mais profundidade e de os intercambistas desenharem os mapas dos lugares visitados. Depois, hora de voltar para casa. Alguns deles já estão com as cisternas prontas, outros com ela em construção, mas em todos, depois do intercâmbio, o ânimo e a certeza de que vai dar certo.
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