Finalizando a implantação de 150 tecnologias sociais de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS), o Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (CETRA) e o Instituto Antônio Conselheiro (IAC), com o apoio da Fundação Banco do Brasil (FBB), realizaram, entre os dias 7 e 9 de maio, o I Encontro Estadual do PAIS. Na programação, pudemos contar com a presença de Cláudia Zulmira, da FBB, Silas Bastos, representando o secretário do Desenvolvimento Agrário Nelson Martins e Paulo Sucupira, por parte da superintendência do Banco do Brasil no Ceará.
A ideia foi reunir os agricultores e as agricultoras beneficiários, oriundos dos municípios de Paracuru, Paraipaba, Meruoca, Trairi, Amontada, Quixadá e Senador Pompeu, além de técnicos e técnicas e parceiros do projeto, num rico momento no qual o jeito de fazer agricultura no litoral, no sertão e na serra se torna a troca de saberes e sabores da agricultura agroecológica, promovendo o intercâmbio entre os agricultores e as agricultoras que vêm desenvolvendo experimentos com seus quintais produtivos com o objetivo de fortalecer e diversificar ainda mais suas experiências.
Desde a implantação, os resultados vêm sendo positivos, tanto financeiramente como na saúde e isso fica muito claro ao conversar com os agricultores, como Rita do Nascimento, da comunidade Novo Oriente, em Trairi, para quem o PAIS “mudou tudo”. Ela conta que já tinha o hábito de comer verdura, mas agora tem a diferença de não comprar mais e até vender para os vizinhos. Além disso, antes ela sofria de depressão, “queria algo para cuidar, chamar de meu, fazer do meu jeito e consegui isso com o PAIS. Antes eu tinha medo de sair de casa, agora vivo no mundo, tenho vontade de participar das coisas que eu já tinha era desistido de lutar por causa da depressão”, diz ela animada.
*O PAIS é um sistema de produção agrícola que une a criação de galinhas à horticultura em um esquema circular com irrigação integrada. A estratégia de reaplicar tecnologias sociais em geral vem sendo adotada pela FBB desde 2003, com foco na superação da pobreza por meio da geração de renda e educação e, a longo prazo, protagonismo social, solidariedade econômica, cuidado ambiental e respeito cultural.
Leia MaisO sol dessa quarta-feira, 9 de maio, em Itapipoca, ganhou um calor diferente desde o comecinho. O último dia do I Encontro Estadual do PAIS teve seu início logo de manhã, na Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca –
Leia MaisO Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador, em parceria com o Instituto Antônio Conselheiro e com o apoio da Fundação Banco do Brasil (FBB), iniciou nesta segunda-feira, 7 de maio, o I Encontro Estadual do PAIS, em Itapipoca. Reunindo 60 agricultores e agricultoras que representam boa parte das famílias participantes do projeto, além de técnicos e técnicas, com metodologia facilitada por Alexandre Merren, o Encontro segue até quarta-feira proporcionando uma série de discussões e construções coletivas de conhecimento entre todos os envolvidos.
Após a acolhida, a tarde foi de reflexões. O primeiro momento teve os depoimentos de Josilene, de Amontada, Neto, representando o grupo da Feira Agroecológica do distrito de São João dos Queirós (Quixadá) e Luciano, de Trairi, cada um contando sua experiência e o que mudou em sua vida depois do projeto PAIS.
Depois, a própria FBB, na pessoa de Cláudia Zulmira, se colocou sobre o projeto. Ela colocou a importância que as tecnologias sociais como a estratégia adotada pela Fundação para superação da pobreza, por serem soluções para problemas que vêm das pessoas que os vivenciam, além de destacar que estas tecnologias vem acompanhadas de outros pontos importantes, como o protagonismo social e o desenvolvimento sustentável. Neste sentido, “o PAIS é uma forma de produzir alimentos em harmonia com o meio ambiente e utiliza o processo de transição agroecológica para recuperar conhecimentos antigos. Esta tecnologia vêm dando certo em todo o Brasil, sendo reaplicada para se adequar aos diferentes climas”, aponta.
Quem seguiu com a palavra foi Cristina Nascimento, da coordenação colegiada do CETRA, colocando a grande vitória que foi ampliar o trabalho para outros municípios, como Meruoca, Amontada, Paracuru e Paraipaba, através deste projeto. “O que estamos celebrando hoje é uma junção do trabalho de diversos atores, como técnicos, prefeituras e sindicatos, mas principalmente de agricultores e agricultoras que se colocaram no desafio”, explica, ela, que complementa: “essa mandala é uma ciranda que é de todos nós”. Além disso, destaca a importância na horizontalidade das relações entre agricultores e entre estes e o CETRA.
Sérgio Veríssimo, um dos coordenadores do projeto PAIS, destacou a forma como o projeto afetou as relações familiares, por passar a envolver toda a família trabalhando no mesmo espaço de produção, dividindo tarefas. Outro ponto abordado por ele foi a comercialização, que não foi tão focada, mas “o pouco que foi falado já surtiu resultado, tem muita gente vendendo na própria comunidade, e isso é bom, porque as comunidades rurais também precisam ser abastecidas.
Após as falas expositivas, os/as participantes foram divididos em seis grupos para discutir pontos comuns à todas as vivências, como segurança alimentar e nutricional, ampliação da renda familiar e organização comunitária, abordando as dificuldades e conquistas de cada um deles. Ao final do dia, todos, muito animados, se inscreveram nos intercâmbios desta terça-feira, indo dormir ansiosos para as visitações do dia seguinte.
Leia MaisAndar pelo semiárido cearense proporciona visões muito diversas. Mais diversas ainda são as formas que as pessoas encontram de superar os empencilhos que aparecem, mostrando que criatividade e força de vontade para o trabalho dão certo e mostram que a terra de todo o semiárido é boa sim para cultivar.
Entre serra, sertão e praia, o território da cidadania Vales do Curu e Aracatiaçu consegue nos mostrar a diversidade de soluções que podem surgir para a questão do cultivo. A microrregião, assim como o território do Sertão Central, foi beneficiada com projetos de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS), executados pelo Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (CETRA) em parceria com a Fundação Banco do Brasil.
Cada um com suas especificidades:
Na região praiana dos municípios de Paraipaba, Trairi e Paracuru existe a questão a porosidade do solo, para o qual o sistema de gotejamento encontra algumas debilidades. Por outro lado, a umidade relativa do ar é mais alta. Se faz muito necessária também a adubação do solo com matéria orgânica por causa da porosidade e de uma possível salinidade, devido à proximidade com o mar, então os canteiros adubados foram uma boa solução; é bom também deixar o mato cobrindo a terra para o solo não sofrer erosão.
Meruoca já se encontra em cima da serra. Lá é uma Área de Preservação Ambiental (APA), então há tempos se deixou de queimar roçado. A terra é vermelha e mais consistente, parecida com o barro, além de muito úmida. A maior parte dos PAIS lá vão se misturando com a mata nativa que também é bem presente no quintal. O sistema de irrigação de gotejamento dá certo e ajuda na economia de água.
Amontada está no sertão. Lá, dá mais trabalho montar os canteiros circulares, porque o barro é duro de cavar e revolver – nada que mais dias de trabalho não resolvam. O sistema de gotejamento funciona perfeito, pois a gota que sai se espalha e agoar o canteiro todo precisa de pouca água. Além disso, como a umidade do ar é baixa, é bom molhar as folhas. Para quem cria animais, vale a pena cercar o PAIS e deixar os bichos soltos.
No final, todos satisfeitos.
Em breves minutos de conversa com qualquer uma das famílias beneficiárias se escuta que a vida de cada uma delas mudou. E pra melhor. Legumes e verduras que antes eram esporádicos passaram a ser parte do cardápio diário, proporcionando uma alimentação mais saudável. Há quem crie galinhas para comer, há quem crie galinhas para pôr ovos, mas em ambos os casos a proteína da alimentação também está garantida. Lucros, podemos contabilizar os monetários, como a venda do excedente da produção em mercados, feiras e programas governamentais de aquisição de alimentos, e os não-monetários, uma vez que as famílias também deixaram de comprar vários alimentos porque passaram a produzir em casa. Podemos dar destaque também para a questão da qualidade de vida a partir da mudança da forma de manejar a produção, deixando o tempo mais livre para as pessoas se dedicarem a outras ocupações.
Além disso, entra o aproveitamento dentro do próprio sistema. Matéria orgânica e esterco de galinha vira adubo – e estrume de galinha é uma maravilha para plantar cebolinha. O que sobra da horta também vai alimentar os animais, o que dá mais saúde para eles e economiza também na ração. Defensivos, só os naturais, feitos de plantas que se encontram nas proximidades, como o álcool com castanha e o produzido a partir do nim.
O PAIS se integra aos quintais das famílias – ou é ele mesmo o próprio quintal. Fortalece a ideia de que o semiárido cearense é terra boa, de produção. Cada família deu a sua cara para os canteiros circulares. Perto das hortaliças, tem plantas medicinais, tem milho e feijão – provando que o roçado não é a única alternativa, tem flores para atrair as abelhas, tem até amora, uma fruta considerada de climas frios. E tudo dá.
Leia MaisÉ comum ouvir das bocas dos agricultores que uma das partes mais importantes dos projetos é a assessoria técnica e os aprendizados que ela leva.
Leia MaisMudanças significativas são vistas e sentidas rapidamente. Foram oito meses de 2011 em que o Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador (CETRA), em parceria com a Fundação Banco do Brasil (FBB), trabalhou na implantação 150 sistemas PAIS nos Territórios da Cidadania Vales do Curu e Aracatiaçu e Sertão Central. Atualmente todos os PAIS estão em produção, e passando por uma oficina de Gestão de Finanças Solidárias e Comercialização, para iabilizar ainda mais o acesso dos produtos agroecológicos ao consumidor.
O PAIS, Produção Agroecológica Integrada e Sustentável, é uma tecnologia social que busca fortalecer a estratégia familiar na produção de alimentos saudáveis, implantando na unidade produtiva de cada família, um sistema de produção circular onde a criação de pequenos animais fica ao centro e a produção vegetal ao redor. Baseado nos princípios da agroecologia de produzir em harmonia com o meio ambiente, o PAIS coloca um sistema de irrigação de gotejamento integrado , reduzindo o uso de recursos hídricos e de energias não-renováveis.
Nos relatos dos agricultores se fala sempre em melhoria da qualidade de vida. Tanto na alimentação diária, quando passaram a consumir verduras e hortaliças, como na geração de renda familiar através da venda do excedente nas feiras, as famílias constatam que produzir agroecologicamente de forma integrada dá certo.
O uso desta tecnologia social para superar a pobreza não entrou só na questão monetária, mas também na criação – ou resgate – de um estilo de vida tendo como centro o meio rural como espaço de potencialidades.
Falar de resultados subjetivos é um pouco mais difícil, mas pode-se destacar a mudança na forma de fazer agricultura para uma mais sustentável, sem aplicar produtos químicos e diminuindo o desmatamento, conscientização de consumidores sobre o produto agroecológico, geração de renda através da comercialização em diversos mercados, além dos intercâmbios que aconteceram cotidianamente, organizados e pensados espontaneamente pelos agricultores a partir da idéia de que conhecimento se constrói de forma coletiva e conhecer experiências é uma das formas de pensar soluções para problemáticas comuns.Vale destacar também a interação cultural que se gera no espaço da feira, um dos tradicionais espaços lúdicos do campo, fortalecendo a identidade entre as famílias e o espaço onde vivem e fortalecendo a organização comunitária.
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